A Semana de 22 mudou a arquitetura, o design e o paisagismo do Brasil

01/fev/2022

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi realizada entre os dias 13 e 17 de fevereiro no no Teatro Municipal de São Paulo e transformou a produção de arquitetura, design e paisagismo no Brasil (Fotos: Reprodução | Montagem: Casa e Jardim)

Em fevereiro de 1922, um grupo de jovens artistas enfrentou os acadêmicos e se reuniu em São Paulo para se manifestar e expor obras que rompiam com os padrões rígidos da época. “Foi uma libertação! Quando aconteceu a Semana de Arte Moderna, não se tinha a perspectiva de que aquela energia boa durasse 100 anos. É a vanguarda que permanece”, diz o arquiteto Gustavo Penna, que celebra o movimento responsável por mudanças nas artes e também na arquitetura, no design e no paisagismo do país. “Os modernistas nos mostraram que somos uma nação de outra dimensão: não se deve olhar só o que acontece fora, mas reconhecer nosso valor. Como ter as obras de Brasília e Pampulha sem a Semana de 22, feita por uma elite, mas que pensou o Brasil como um todo e plural?”

Cartaz da Semana de 22 feito pelo artista Di Cavalcanti (Foto: Reprodução)
Cartaz da Semana de 22 feito pelo artista Di Cavalcanti (Foto: Reprodução)

Influência na arquitetura

Na arquitetura, o modernismo deixou sementes que são referências nos projetos de construções atuais, segundo o arquiteto Milton Braga, sócio do escritório MMBB e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). “A arquitetura moderna começou a dar frutos mais tarde porque tem escala que demora a ser feita. Na década de 1920, os primeiros arquitetos a se manifestarem em projetos foram Lúcio Costa e Gregori Warchavchik”, diz Milton.

“Como professor de projetos, posso dizer que a agenda moderna na arquitetura continua presente um século depois da Semana, principalmente no Brasil, que é um país em consolidação. A cidade justa e sustentável era um ideal naquela época e continua sendo hoje.”

Quadro Operários, de Tarsila do Amaral, que retrata imigrantes como o arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik (Foto: Divulgação)
Quadro 'Operários', de Tarsila do Amaral, que retrata imigrantes como o arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik (Foto: Reprodução)

Arte genuinamente brasileira

A arquiteta Ana Sawaia lembra a importância do movimento, que aconteceu 100 anos depois da Independência do Brasil. “Com a revolução industrial, novas tecnologias surgiram e refletiram nas artes. Em São Paulo, os artistas fizeram reuniões para romper com a estética de fora e produzir arte genuinamente brasileira”, diz.

Ela recorda que o poeta e pintor Menotti Del Picchia levou dois arquitetos estrangeiros para a Semana que apresentaram projetos antiquados, com adornos que nada tinham a ver com os princípios modernistas lançados à época na Europa. “Mas as obras de arte contaminaram os arquitetos no país, que começaram a olhar mais para a estética da casa, para o equilíbrio com a limpeza dos ornamentos e, com pouco, criar ambiente aconchegante.”

Móveis criados por Lina Bo Bardi e expostos na sala de sua Casa de Vidro (Foto: Ilana Bar/Editora Globo)
Móveis criados por Lina Bo Bardi e expostos na sala de sua Casa de Vidro (Foto: Ilana Bar / Editora Globo)

Para o arquiteto André Scarpa, a ruptura com o academismo e o neoclássico nas obras de arte abriu caminho para a modernidade na escultura de Victor Brecheret, que repercutiu na arquitetura. “A maior lição que ficou é a valorização da brasilidade”, diz. Ele lembra que, em 1928, o escritor Oswald de Andrade, que participou da Semana de 22, publicou o Manifesto Antropofágico, que proclamava comer de outras culturas para dar forma a uma cultura brasileira. “Na arquitetura, a ideia era criar uma identidade nacional aproveitando as vantagens de nosso clima tropical, como a construção de prédios elevados com jardins embaixo”, afirma. “Olhar para o que temos de bom e ver nosso potencial imenso para ser o país do futuro.”

Retrato do escritor Oswald de Andrade, feito em 1922 por sua ex-mulher Tarsila do Amaral (Foto: Reprodução)

Lá fora e aqui dentro

Na década de 1920, São Paulo começava a se transformar em uma cidade cosmopolita e recebia as influências da diversidade cultural dos imigrantes europeus retratados no quadro Operários, de Tarsila do Amaral. Na tela aparece a figura do arquiteto Gregori Warchavchik, de origem ucraniana, que chegou ao Brasil em 1923 e se aproximou dos artistas da Semana de Arte Moderna. Ele e o paulistano Rino Levi, que estudava arquitetura na Itália, ficaram empolgados com as manifestações do movimento e enviaram a jornais brasileiros cartas-manifestos em 1925, que foram fundamentais para divulgar no país as ideias do modernismo europeu e a necessidade da renovação da arquitetura.

O quadro 'Abaporu', 1928, obra de Tarsila do Amaral (Foto: Reprodução)

Os dois abordavam os conceitos do arquiteto Le Corbusier, franco-suíço, publicados em artigos na revista L’Esprit Nouveau. Na carta-manifesto, Rino anunciava um novo espírito: arquitetura de volumes, linhas simples e poucos elementos decorativos. “É preciso estudar o que se fez e o que se está fazendo no exterior e resolver nossos casos sobre estética das cidades com alma brasileira”, escreveu o arquiteto, que exaltava a vegetação do país para usar em jardins e parques.

Arquitetura modernista

Uma das visões do modernismo era a da casa-máquina capaz de suprir todas as necessidades. Mas, segundo Milton Braga, hoje ter ar-condicionado não é mais o ideal em uma casa moderna. “Isso mudou com a visão de ter uma casa sustentável. Utiliza-se de artifícios para obter ventilação natural mais eficiente e reduzir o consumo de energia elétrica”, diz. “Na arquitetura e no urbanismo, a racionalidade e a tecnologia continuam valendo como valores propagados na época.” Ele observa que a Villa Savoye, na França, primeira casa em que Le Corbusier aplicou seus Cinco Pontos da Nova Arquitetura, na década de 1920, ainda é atual se comparada a um carro daquela época: “a casa não é datada como o carro se mostra”.

Jardim sob prédio suspenso por pilotis no Edifício Louveira, projetado por Vilanova Artigas, em 1946 (Foto: Felipe Morozini/Editora Globo)
Jardim sob prédio suspenso por pilotis no Edifício Louveira, projetado por Vilanova Artigas, em 1946 (Foto: Felipe Morozini / Editora Globo)

“Cada vez são mais importantes nas casas contemporâneas o concreto armado, a estrutura independente, as janelas em toda a fachada, o apoio de pilotis que permitem o pátio embaixo e a cobertura como terraço-jardim”, afirma Milton. “Warchavchik pautou o assunto em seus projetos, mas não fez obras tão marcantes. No Brasil, os nomes fortes são Oscar NiemeyerVilanova Artigas e Lina Bo Bardi, que ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza.” Um exemplo é a Casa de Vidro, que Lina projetou seguindo os princípios de Le Corbusier. “Lina ampliou a visão da modernidade no Brasil. Fez o MASP com o vão-livre pois era comprometida com uma sociedade mais justa e com a cultura popular”, diz. “A visão do moderno foi ampliada na arquitetura brasileira, e as aspirações da Semana de 22 continuam valendo.”

Museu de Arte de São Paulo (MASP), projeto de Lina Bo Bardi (Foto: Getty Images)

O arquiteto André Scarpa lembra que o modernismo demorou a acontecer na arquitetura, mas destaca a importância das casas projetadas por Warchavchik, que aboliu as ornamentações. “Já tinha os valores modernos. Isso foi o principal impacto da Semana de 22 na arquitetura”, diz.

O escritor Oswald de Andrade escreveu texto sobre sua visita à casa da rua Itápolis, projetada pelo arquiteto ucraniano em 1930. “Da Semana de Arte Moderna à casa vitoriosa de Warchavchik vão oito anos de gritaria para convencer que Brecheret não era nenhuma blague, que Anita Malfatti era a coisa mais séria do mundo, que a literatura da Academia Brasileira de Letras era uma vergonha nacional...”

'Monumento às Bandeiras', escultura de Victor Brecheret, que participou da Semana de 22 (Foto: Getty Images)

Prédios inteligentes

Os modernistas passaram a usar a tecnologia a favor da arquitetura, criando prédios inteligentes, como lembra Ana Sawaia. “Rino Levi fez já em 1960 o prédio na Avenida Paulista com fachada de brises, que dispensava ar-condicionado. Em São Paulo, Lina Bo Bardi empregou a tecnologia até o limite para fazer o vão-livre no MASP, e Niemeyer teve a ousadia das curvas, possível com o concreto armado, que tem tudo a ver com nossa brasilidade”, afirma.

Detalhe do Palácio Capanema, RJ, construído de 1936 a 1945 por Lúcio Costa, que teve a colaboração de Le Corbusier (Foto: Pablo Jacob / Infoglobo)

André Scarpa recorda que os arquitetos do Rio de Janeiro estavam mais abertos ao pensamento moderno por conta da visita de Le Corbusier, que contribuiu no projeto do Palácio Capanema, em 1935, obra de Lúcio Costa. “Em 1942, Niemeyer projetou o Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, e em 1958, o Edifício Copan, em São Paulo. Depois foi fazer Brasília”, diz. “Em São Paulo, Rino projetou o Cine Art-Palácio, em 1926, marco arquitetônico com linhas retas.” E lembra que Artigas fez o Edifício Louveira, em 1950, com as janelas voltadas para o jardim interno, quando a Prefeitura exigia que fossem para a rua. “Por mais que existisse uma classe pensante querendo inovar na arquitetura, a burocracia impedia mudanças.”

Igreja no conjunto da Pampulha, MG, projetado em 1940 por Niemeyer (Foto: Getty Images)

Limpeza nas formas

O arquiteto Pedro Kastrup Buzanovsky considera que o movimento modernista foi importante porque levou à limpeza das formas e à valorização da materialidade. “Com a revolução industrial, veio a produção em larga escala de aço, concreto e vidro. O modernismo levou funcionalidade e mais luz aos projetos. A autoria identificada com o Brasil se perpetuou pelas gerações futuras.” Segundo ele, houve reinterpretações, mas ficou o essencial. “Tirar os excessos para uma arquitetura limpa tem cada vez mais sentido nos dias atuais. A sofisticação e a sutileza das formas simples nos projetos de interiores e no design de peças fazem esses durarem mais tempo. Por isso, valorizamos o móvel moderno com leveza e bem pensado, como os criados por Joaquim Tenreiro e Niemeyer.”

As curvas do Edifício Copan, SP, obra de Oscar Niemeyer (Foto: Getty Images)

Ana Sawaia destaca as ideias modernistas que defendem a verdade dos materiais, como concreto aparente e madeira na cor original. “A maior contribuição nos interiores foi o uso dos materiais de maneira franca, que envelhecem bonitos, e os espaços mais fluidos”, afirma. Mas o principal legado da Semana de 22, segundo ela, foi a importância que os arquitetos modernos passaram a dar à arte. “Eles envolveram os artistas plásticos em seus projetos. Niemeyer convidou Athos Bulcão para criar os murais em seus prédios e Roberto Burle Marx para fazer os jardins”, diz a arquiteta.

Palácio da Justiça, em Brasília, projetado por Oscar Niemeyer, com paisagismo de Burle Marx (Foto: Getty Images)

Paisagismo tropical

O arquiteto e paisagista Raul Pereira afirma que o movimento foi fundamental na arquitetura porque os modernistas inovaram na forma com o pensamento de um mundo mais socializado, com espaços amplos para a convivência e linguagem libertária. “No paisagismo, Burle Marx foi importante. Ele participou mais tarde do movimento e criou o paisagismo tropical moderno, com linguagem singular e obras únicas”, diz. Segundo ele, a paisagista paulistana Mina Klabin foi a primeira a fazer jardim usando espécies tropicais e rompendo com parâmetros europeus, mas criou poucos projetos em casas assinadas por seu marido Gregori Warchavchik. “Mina usou cactos por influência das obras de arte dos modernistas e porque fazem parte de nosso ecossistema”, lembra Raul.

Paisagismo com cactos de Mina Klabin na Casa Modernista, SP, projetada em 1930 por seu marido, o arquiteto Gregori Warchavchik (Foto: Fernando Donasci / Editora Globo)

A arquiteta e paisagista Caterina Poli lembra que a Semana de 22 repercutiu anos depois no paisagismo com a valorização das plantas brasileiras. “O primeiro projeto de Burle Marx foi por volta de 1930, quando fez o jardim da casa de Roberto Marinho, no Rio. Ele era artista plástico e, ao voltar da Alemanha, teve a ideia do jardim tropical depois de se encontrar com pintores da época”, diz Catê. “O paisagismo dele é um reflexo de sua arte, que era modernista. O Palácio Capanema teve a forma inédita de jardim orgânico tropical projetado por ele, que foi o precursor dessa mudança e por isso teve importância internacional.”

Jardim com espécies nativas projetado pelo paisagista Burle Marx na década de 1930 na casa de Roberto Marinho, RJ (Foto: Alexandre Cassiano / Infoglobo)

Raul recorda que Burle Marx foi grande pesquisador de espécies nativas dos nossos biomas, mas também dava importância para as plantas exóticas de outros países. “Ele as adaptava à concepção estética de nosso país em movimento antropofágico. Não tinha preconceito de misturar estilos, mas recusava as topiarias usadas em jardim francês”, lembra. “No modernismo, teve a intensificação do uso de obras de arte em jardins. O próprio Burle Marx, que era artista plástico, as utilizava.”

As linhas modernas do Museu de Congonhas, MG, projetado por Gustavo Penna, em homenagem ao artista Aleijadinho (Foto: Jomar Bragança / Divulgação)

Para Gustavo Penna, os modernistas abriram uma clareira no céu denso acadêmico e nos fizeram sentir o perfume que vem de nós mesmos. “Muitas vezes não nos olhamos por dentro para ver nossa grandeza e delicadeza. Isso constrói a brasilidade”, diz. “Há 100 anos, os modernistas viajavam pelo país. Eram malucos fundamentais. Reconheceram a força do barroco. Viram as obras de Aleijadinho e as declararam arte brasileira”, lembra Gustavo, que considera uma sorte ter projetado o Museu de Congonhas, em Minas Gerais, em homenagem a Aleijadinho. “Agora com a internet, devemos nos conectar mais como um país plural: alegre e criativo. Acredito muito no Brasil”, conclui. “Que venha a Semana de 2022 chover em nossas cabeças a vontade de criar coisas bacanas e honestas.”

FONTE Casa e Jardim

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