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Controle de pragas em hortaliças: entrevista completa com pesquisador da EMBRAPA

A edição 267 da revista PAINEL publicou uma matéria sobre o controle de pragas em hortaliças. Veja a entrevista completa que a reportagem da revista fez com o engenheiro agrônomo Miguel Michereff Filho, doutor em Entomologia e pesquisador da Embrapa Hortaliças.

1-Quais os principais desafios no controle de pragas de hortaliças?

Um dos principais desafios é controlar eficientemente as pragas agrícolas em cultivos de hortaliças e, ao mesmo tempo, caminhar em direção à sustentabilidade. Depende muito do contexto no qual a produção está inserida para que esse desafio seja superado. Muitas vezes, há bastante tecnologia sendo empregada nos cultivos de hortaliças (a exemplo de tomate, batata e melão), mas se não houver planejamento ou adoção correta de boas práticas como manejo da fertilidade do solo e rotação de culturas, pode ocorrer um desequilíbrio no sistema que predispõe a hortaliça às pragas e doenças. As monoculturas apresentam grande uniformidade genética, com cultivos sucessivos e nenhum período de pousio. Isso acarreta uma série de problemas com pragas e doenças que, na verdade, são simples sintomas do mau funcionamento do agroecossistema. Sem identificar a causa principal, o agricultor toma ações paliativas (controle do agente causador de danos) para manter a rentabilidade no curto prazo e, em função disso, não trabalha para ajustar o sistema de produção rumo à sustentabilidade. É preciso adotar alternativas de controle menos impactantes que caminhem na direção da sustentabilidade do sistema produtivo.

2-Quais as pragas mais frequentes e difíceis de se combater em hortaliças?

Insetos e ácaros fitófagos (aqueles que se alimentam de plantas) apresentam grande capacidade reprodutiva; ou seja, se multiplicam rapidamente, ocasionando grandes danos ao cultivo – mesmo em baixa infestação. Dentre os insetos merecem destaque aqueles de hábito sugador como as moscas-brancas, os tripes e os pulgões, sendo que várias espécies desse grupo também são transmissoras de vírus que ocasionam doenças severas em tomate, batata, pimentão e pimentas, melancia, melão e alface. Quando assumem importância como vetores de vírus, uma pequena população desses insetos (um ou dois insetos na lavoura) já é suficiente pode ocasionar grandes perdas na produção. Outro grupo importante são as lagartas broqueadoras de frutos, como a traça-do-tomateiro e a broca-das-cucurbitáceas, cujas lagartas se protegem dentro dos frutos e não são atingidas facilmente pelos inseticidas aplicados. No caso dos ácaros, existem várias espécies diminutas que não são facilmente percebidas na lavoura, suas populações rapidamente explodem e podem causar grandes perdas, mesmo se o produtor adotar alguma medida de controle. Neste caso, temos o ácaro-rajado em morangueiro e o ácaro-branco em pimentão.

3-O que ocasiona o aumento dessas pragas?

São vários fatores. Insetos e ácaros fitófagos ocorrem naturalmente, porém, como seus hospedeiros têm uma distribuição difusa, as populações desses herbívoros se mantêm em certo nível de equilíbrio. À medida que se intensificam os cultivos, as plantas concentram sua energia em uma maior produtividade em detrimento de outros fatores como mecanismos de defesa natural e adaptabilidade a condições climáticas extremas. Nos cultivos em grande escala (monoculturas), para facilitar o manejo e a colheita, preza-se a uniformidade e não a variabilidade natural das plantas. Com isso, quando a produção agrícola não dispõe de todas as condições favoráveis por problemas quaisquer, seja de disponibilidade hídrica ou de balanço nutricional, as plantas não resistem porque, ao longo do tempo, não foram selecionadas para esses fatores de estresse. Os cultivos em larga escala também proporcionam grandes quantidades de alimentos durante o ano inteiro, o que favorece a explosão populacional das pragas - se somar o uso indiscriminado de agrotóxicos, que eliminam os inimigos naturais, a situação fica ainda mais problemática e, assim então, surgem pragas ou, com o passar dos anos, tornam-se mais severas. O clima também pode ser favorável às pragas, de tal forma que as populações se elevam e deixam de ser controladas naturalmente, levando a severas infestações e perdas na produção. Neste contexto, temos períodos de secas prolongadas ou veranicos sucessivos durante a estação chuvosa. Outra causa é o comércio internacional e o deslocamento humano, que podem transportar espécies fitófagas entre uma e outra região do globo, introduzindo pragas exóticas que, na ausência de inimigos naturais, encontram condições propícias para explodir e causar danos severos.

4-Como controlar essas pragas?

O manejo mais adequado dessas pragas consiste no uso planejado e simultâneo de várias medidas de controle ao longo do ciclo da cultura, no sentido de propiciar diferentes frentes de combate à praga que se complementam. Diante disso, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) é a proposta mais viável.

5-Como funciona o Manejo Integrado de Pragas (MIP)?

O MIP apresenta uma proposta de controle que parte da premissa de que primeiramente é preciso distinguir o que é praga e o que não é. A partir disso, devem-se tomar as devidas providências. Também estipula a inspeção periódica da lavoura para evitar a calendarização das pulverizações de agrotóxicos já que, muitas vezes, os agricultores aplicam produtos sem saber se a praga está presente na lavoura ou se sua infestação pode levar a alguma perda financeira. Não adianta utilizar produtos como inseticidas reguladores de crescimento, que atuam na fisiologia do inseto quando ele está na fase jovem (ninfa ou lagarta), se a praga já está no estágio adulto e não é mais prejudicada pelo inseticida. Além de jogar dinheiro fora, o uso equivocado pode favorecer uma pressão de seleção que vai resultar em uma população da praga resistente aos agrotóxicos. O diagnóstico da presença da praga na lavoura subsidia uma correta tomada de decisão e resulta na redução da frequência de aplicação e da quantidade utilizada, o que vai diminuir o custo sem afetar a produção.

Deve-se ressaltar que o MIP tem como princípios a manutenção da população da praga em níveis toleráveis à exploração agrícola (abaixo do nível de dano econômico), a preservação ou o incremento dos fatores de mortalidade natural (principalmente inimigos naturais) e a racionalização no uso dos agrotóxicos, por meio do uso integrado dos métodos de controle selecionados com base em parâmetros econômicos, ecológicos e sociais. Neste contexto, o MIP mostra-se como uma alternativa economicamente viável e compatível com as premissas da sustentabilidade. Diversas táticas ou métodos de controle podem e devem ser usados no manejo integrado de pragas, dentre eles: o manejo do ambiente de cultivo (controles cultural, físico e mecânico), o controle legislativo, o controle por comportamento, a resistência de plantas (incluindo plantas geneticamente modificadas – OGM), o controle biológico (ação de predadores, parasitoides e entomopatógenos), a manipulação genética de pragas, o controle alternativo e, quando necessário e apropriado, o controle químico com produtos seletivos em favor dos organismos benéficos e de baixa toxicidade ao homem.

Para algumas culturas é mais simples implantar o MIP, por exemplo, em hortaliças folhosas que não possuem como praga-chave um inseto transmissor de fitopatógenos (microrganismos que causam doenças em plantas). Nesses casos, é possível fazer o manejo de acordo com os parâmetros estabelecidos pela pesquisa quanto ao nível de dano econômico, que avalia a densidade populacional da praga capaz de causar prejuízo de igual valor ao seu custo de controle. Contudo, em culturas suscetíveis a pragas transmissoras de vírus ou outros fitopatógenos, como tomate e batata, que enfrentam problemas com mosca-branca e tripes, a relação entre o dano e a população da praga não é direta, visto que pequenas populações podem implicar em uma grande incidência da doença.

Diante de insetos ou ácaros pragas que também são vetores, fica difícil dispensar o controle químico nos sistemas de produção convencional. Apesar de não ser dispensável, ele pode ser feito da melhor maneira possível: aplicações na dosagem ideal e no momento correto e uso de produtos seletivos que matem a praga, mas não prejudiquem os inimigos naturais e os polinizadores. De qualquer forma, o MIP pressupõe a associação de dois ou mais métodos de controle, não somente controle químico. Com exceção de situações críticas com várias pragas-vetores na mesma cultura, há como reduzir o volume de pulverizações e, com isso, amortizar o custo de produção em até 40% na maioria dos sistemas.

Há uma série de práticas que devem ser feitas antes mesmo da semeadura para minorar o uso do controle químico, tais como: analisar o histórico da área; programar o isolamento da área com barreiras físicas para retardar a entrada da praga na lavoura; escolher a melhor época de plantio para evitar os picos de ocorrência de pragas e doenças; optar por cultivares adaptadas, resistentes e precoces, entre outros. Quando se adota diversas práticas, compatíveis entre si, cria-se várias frentes de controle e, ao longo do tempo, a eficiência aumenta ao passo que o problema fitossanitário reduz. Após a colheita, outros cuidados devem ser lembrados como a destruição dos restos culturais, o vazio sanitário e a sucessão correta de culturas (evitar hospedeiros da mesma praga), tudo para quebrar o ciclo biológico da praga e garantir a sanidade da próxima safra. Vale destacar que os princípios do manejo integrado que, antes, eram aplicados apenas no contexto fitossanitário, atualmente, foram extrapolados e adotados em uma conjuntura mais abrangente dentro do processo produtivo, de modo a gerenciar riscos e otimizar a produção.

6-Quais as hortaliças que mais sofrem com a infestação de pragas?

No geral, a maioria das hortaliças sofre com a infestação de uma ou duas espécies de pragas (insetos e/ou ácaros fitófagos), que se não controlados eficientemente, podem levar a perdas consideráveis. Isso depende muito da região produtora, do clima, da hortaliça em questão, do sistema de produção da hortaliça e da cultivar utilizada. Das hortaliças que mais sofrem com problemas de pragas (insetos e ácaros fitófagos), temos o tomate, o morango, a batata, as brássicas (couve-folha, brócolis, couve-flor e repolho), o pimentão e as cucurbitáceas (melancia, melão, abóboras e moranga).

7-Quais os estudos mais recentes do Embrapa nesta área?

Nos últimos cinco anos, a Embrapa tem concentrado esforços para o manejo da mosca-branca (Bemisia tabaci), da geminivirose (ou mosaico dourado do tomate) e da broca-gigante do fruto (Helicoverpa armigera) em tomateiro. Para mosca-branca e geminivose, os estudos realizados abordaram a epidemiologia da geminivirose em cultivos de tomate para mesa e para processamento industrial, o desenvolvimento de um sistema para monitoramento populacional da mosca-branca em cultivos de tomateiro para processamento industrial, o uso de resistência varietal à geminivirose (cultivares com o gene de resistência Ty-1), a detecção e monitoramento de resistência aos inseticidas em populações de mosca-branca, a otimização do controle químico da mosca-branca, o uso combinado de controle químico da mosca-branca com resistência varietal à geminivirose, o uso de produtos indutores de resistência à mosca-branca em tomate, além da determinação das melhores épocas de cultivo de tomate para evitar severa ocorrência de mosca-branca e geminivirose. Para a Helicoverpa, as pesquisas focaram na determinação da variabilidade genética em populações da praga em diferentes regiões produtoras de tomate no Brasil, na detecção de fontes de resistência varietal em genótipos de tomateiro e nas possibilidades de uso do monitoramento populacional baseado em captura de mariposas em armadilha luminosa e em armadilha iscada com feromônio sexual sintético como ferramentas para detecção da entrada da H. armigera na lavoura de tomate e para subsidiar a tomada de decisão do momento certo de controle dessa praga.

8-Quais as tecnologias no combate as pragas mais recentes no mercado?

Infelizmente, no Brasil não há grandes avanços tecnológicos para o controle de pragas em hortaliças. O que tem surgido são alguns inseticidas e acaricidas químicos que são mais eficientes contra algumas pragas de difícil controle (moscas-brancas, tripes, mosca-minadoras traça-do-tomateiro e traça-das-crucíferas) e, ao mesmo tempo, menos tóxicos ao homem e mais seletivos em favor dos inimigos naturais. No entanto, ainda há necessidade de melhorias nas tecnologias para aplicação de pesticidas, de tal forma que produtos reconhecidamente eficientes possam atingir os alvos biológicos (insetos e ácaros escondidos ou protegidos na face inferior das folhas, dentro de brotações e inflorescências) e, com isso, propiciar o controle esperado pelos produtores. Além disso, o manejo integrado de pragas ainda continua sendo pouco adotado entre os produtores de hortaliças e quando exercido, resume-se principalmente no uso de inseticidas e acaricidas seletivos em favor dos inimigos naturais.

De toda forma, para curto prazo, não se precisa de novas táticas de controle, mas sim de um incentivo maior à adoção dos métodos que já existem. No caso da pesquisa de médio e longo prazo, a sistematização de conhecimentos e a geração e/ou adaptação de tecnologias são extremamente desejáveis, principalmente a partir de iniciativas multi-institucionais que favoreçam a otimização de recursos e competências. A tendência nessa área é que equipes multidisciplinares estudem não somente a cultura, mas a propriedade, em uma escala de paisagem para gerar soluções duradouras e eficazes. A pesquisa deve integrar conhecimento e traduzi-lo para a cadeia produtiva de forma que ele seja entendido e adotado.

9-Em quais regiões estão os principais focos de pragas em hortaliças?

No geral, regiões mais quentes e que não passam por um período de inverno frio/chuvoso passam a ter mais problemas com pragas em hortaliças. Nessa situação, estariam os estados da região Nordeste, Centro-oeste e parte do Sudeste (Rio de Janeiro, norte do Espírito Santo e de Minas Gerais). Por outro lado, onde o inverno é frio (entre 6oC e 18oC) naturalmente ocorre a quebra do ciclo biológico das pragas e isso reduz significativamente a infestação delas nos cultivos de hortaliças na primavera. Nesse caso, estariam os estados da região Sul, assim como as regiões elevadas de São Paulo e o sul de Minas Gerais.

10-Tem conhecimento de alguma praga recorrente na região de Ribeirão Preto?

Em se tratando de núcleos rurais produtores de hortaliças é comum a ocorrência de infestações severas de traça-do-tomateiro, broca-pequena-do-fruto, moscas-brancas, tripes e das fitoviroses associadas (geminivirose, crinivirose e a doença do vira-cabeça) a esses insetos vetores em cultivos de tomate e pimentão. Cultivos de brássicas (couve-folha, brócolis, couve-flor e repolho) frequentemente sofrem com o ataque da traça-das-crucíferas e de insetos sugadores de seiva como os pulgões e as moscas-brancas. No caso da alface, tanto cultivos de campo aberto como em ambiente protegido (estufas), os problemas recorrentes são os pulgões e os tripes, além da doença conhecida como “vira-cabeça”, cujo vírus causador é transmitido pelos tripes. Já para o morangueiro, um dos grandes problemas é o ácaro-rajado.

11-Existem números de quanto a agricultura brasileira perde com a infestação de pragas em hortaliças?

Infelizmente não há registros oficiais de longo prazo sobre perdas de produção em hortaliças por pragas. Isso depende muito da região produtora, do clima, da hortaliça em questão, do sistema de produção da hortaliça e da cultivar utilizada. No geral, a maioria das hortaliças sofre com a infestação de uma ou duas espécies de pragas (insetos e/ou ácaros fitófagos), que se não controlados eficientemente, podem levar a perdas consideráveis. Alguns autores mencionam entre 5% a 15% de perdas em hortaliças ocasionadas por pragas.

12-Existem várias técnicas caseiras de controle de pragas na internet. O que você acha dessas práticas?

Algumas práticas (manejo da cultura, uso de extratos, óleos e detergente) realmente ajudam no combate às pragas em pequenas áreas de cultivo (hortas urbanas). Porém, na maioria das vezes, as mesmas têm ação apenas paliativa por um curto espaço de tempo e, depois disso, a praga volta a infestar e causar perdas na produção. Não existe um produto e/ou prática alternativa milagrosa. A maioria dos extratos vegetais e caldas a base de sabão ou detergente, que aparece em receitas na internet, tem ação repelente sobre os insetos e ácaros pragas e isso pode durar por até quatro dias. Para as formas jovens de insetos e ácaros a eficiência de controle desses produtos alternativos é mais duradoura, mas a calda inseticida deve ser aplicada diretamente onde o inseto ou ácaro-praga se aloja (face inferior da folha, brotações ou inflorescência). Mesmo com esses produtos, o usuário não deve fazer aplicações frequentes, pois pode prejudicar a planta tratada. No geral, as técnicas caseiras de controle de pragas que são disponibilizadas ao público na internet devem ser adotadas com cautela pelos usuários, visto que nem todas foram cientificamente validadas nas condições brasileiras. 

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